segunda-feira, 19 de julho de 2010

Inocência


Existem circunstâncias em que nós somos os verdadeiros culpados. Porcos vingativos, vilões escrotos em busca da satisfação pessoal...Contudo existem aquelas em que o contexto faz de nós simples folhas avulsas, quase desprotegidas ao excluir o orgulho e a tristeza mascarados pela raiva, que nos servem como uma pseudoproteção. Eu diria que já estive mil e duzentas vezes dos dois lados -sem contar com as situações que agora não recordo-me com devida clareza- e posso afirmar que a mais dolorosa delas é sentir-se completamente ou parcialmente inocente e fingir-se culpado simplesmente para aproximar-se. Abrir mão do orgulho, do pessimismo para orgulhar-se de si mesmo e 3 segundos depois desejar um suicídio pela decisão tomada anteriormente.Para alguém que sempre teve certeza da volta, da busca depois de uma imensa espera, da palavra sem exageros, fácil...não é aceitável deparar-se com condições tão repentinas, com obstáculos e principalmente com indiferença. Quando a simulação já não tem efeito,as madrugadas são longas e as frases curtas como a pausa respiratória e bruscas como o piscar dos olhos, pensamos então que nada mais pode ser solucionado, que aquela dor da culpa era, foi e sempre será pior do que qualquer outra já experimentada. Vamos então percebendo o quão frágeis nos tornamos independente da força da capa que nos envolve (casca retirada antes mesmo de nos darmos conta do que sobrou) e do quão cinzas tornaram-se aqueles olhos azuis...Enfim percebemos -ou não- que cada dor é única, cada situação por mais dolorosa, insfelizmente traz uma angústia diferente, impossível de ser tecnicamente corrigida. Livrar-se de lembranças boas seria mais fácil se o olhar estivesse sempre focado para o ângulo correto, comparando a incapacidade de libertação da memória, das lembranças amargas ou fortificadoras, eu diria. Capacidade para ocultar da mente a rebeldia e trazer a aceitação de viver sem o que nos acostumamos ou simplesmente manter distância, é mais complicado do que imaginamos e sempre deixa marcas. Não considero tais situações como sofrimentos, considero apenas como uma singela dificuldade para sentir sono, uma pequena vontade para concentrar-se e talvez um incômodo sereno para entender que não existe culpa, existe consideração. Talvez por alguém, por algo, por você mesmo...ou um sentimento intrínseco no eu.

Afinal de contas, alguém teria que sentir.

3 comentários:

Italo Stauffenberg disse...

Que texto forte e ótimo ao mesmo tempo.

Abraço.

http://manuscritoperdido.blogspot.com

Gabriel Freitas disse...

teus textos tão cada vez melhores samara, tua percepção também, parabéns

alencar, gabriela disse...

gostei muito do que li por aqui...

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