quarta-feira, 5 de novembro de 2014

RESÍDUOS SÓLIDOS DE UM PASSADO LÍQUIDO – PRIMEIRA PARTE





Tento inutilmente desfazer todas as promessas que fizemos juntos e sou levada por uma insistência atemporal ao desejo de cumpri-las sozinhas. Me recordo constantemente das vezes que você e eu, ou melhor, nós – já que nunca éramos vistos como dois pronomes – íamos a praia mais suja da cidade com a certeza de que qualquer canto seria como o último lugar para reiterarmos a nossa junção absoluta de entrega. Juntávamos promessas, listas, compras e tudo o mais que coubesse dentro da sua sacola ecológica. Preservávamos assim a natureza do nosso amor em todos os espaços. O caminho, a ida até o meio oceânico de todos os fins de semana, sempre era para mim, como uma nova aventura é para uma criança presa. Soltos, meus cabelos embaçavam a minha visão e constantemente você os segurava, me ajudava a perceber que o mundo inteiro estava em segundo plano quando eu fotograva o seu olhar de vontade em ser só segurança, a sua necessidade em prender qualquer coisa que pudesse pular para fora dos nós. A minha caminhada sempre se tornava o nosso enlace. Eis que em 20 ou 25 minutos o momento mais complicado sempre chegava: a ladeira. Era ela que me fazia lembrar que existiam dificuldades antes de você, me acordava só pra me tirar do sonho que a tua presença depositou em minha cabeça, um ponto íngreme dentro de um coração tão cheio como o meu que havia perdido a capacidade de enxergar qualquer coisa de ingratidão no mundo. O desconforto de saber que existia algo mais alto do que o céu em que eu me encontrava quando em teus braços. Subíamos tentando salvar um ao outro, tirando as coisas que mais pesavam e desnudando nossos limites. Juntos, sempre conseguíamos. Nunca nos arrependíamos de nada que era preciso abandonar. Porque tínhamos tudo: um ao outro.   

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